Somos todos indígenas

Foto: Ricardo Stuckert . Foi um dos premiados no Oman 1st Internacional Photography Circuit, que reuniu participantes de 45 países - Índio Kaiapó

Foto: Ricardo Stuckert . Foi um dos premiados no Oman 1st Internacional Photography Circuit, que reuniu participantes de 45 países - Índio Kaiapó

Quem está enfrentando essa temporada de calor sabe o valor de um bom banho! E, mesmo em outras épocas do ano, nós brasileiros, felizmente, temos esse saudável e delicioso hábito do banho diário. Será que esse é um legado português? Quem não conhece os hábitos europeus ligados a banhos e perfumes?

Pois é, felizmente somos todos indígenas e herdamos deles essa delícia que é tomar banho diariamente. E não só de chuveiro, mas também de rio, mar, lagoa... Os portugueses levaram muito tempo até começarem a tomar banho de mar nesse país com imensa extensão litorânea.

Mas não quero falar de calor, banhos e litorais. E, sim, de vida, sabedoria e beleza. Pois é isso que está sendo ameaçado com a “nova” visão política do governo federal recém empossado.

A vida dos descendentes diretos dos povos indígenas, dois milhões de pessoas que já estavam por aqui antes da invasão portuguesa, nunca valeu tão pouco aos olhos oficiais. Aliás, aqueles que insistem em falar em descobrimento do Brasil ignoram que esse enorme pedaço de terra, que posteriormente viria a ser chamado de Brasil, era habitado, cultivado e respeitado há muito tempo pelos povos tradicionais.

Certo, é preciso falar que, apesar dos importantes avanços das últimas décadas, os povos indígenas nunca tiveram uma vida tranquila. As terras que habitam, cultivam e protegem sempre estiveram na mira de fazendeiros, garimpeiros, proprietários de terras, produtores rurais e alguns políticos que os representam. Esses cidadãos poderosos veem os povos indígenas como um entrave para o que eles chamam de progresso. Esses mesmos que, quanto mais poder têm, mais acreditam que o país deve continuar sendo propriedade de poucos, enquanto a imensa maioria da população brasileira deve continuar trabalhando pesado (com cada vez menos direitos) para garantir sua sobrevivência diária.

O fato é que os retrocessos propostos tanto no discurso, quanto nas primeiras atitudes do governo, já deixam claro que a vida de nossos indígenas passa a não valer mais nada.

Em relação à sabedoria, por ironia, se não fossem os povos indígenas, os próprios portugueses que aqui aportaram a partir de 1500 não teriam sobrevivido. Foi com a experiência de quem lida com a terra e com as águas de forma sustentável (mesmo que essa palavra não fizesse sentido naqueles tempos), que os povos indígenas alimentaram e ensinaram os invasores que, logo, iriam se tornar os seus maiores assassinos. Sem falar na medicina indígena que, após séculos salvando vidas, hoje serve de base para as pesquisas de milionários laboratórios farmacêuticos. Que lucram, lucram e lucram, sem valorizar a sabedoria de quem os ensinou a olhar para a natureza com um olhar de cura.

Já sobre a beleza, como entender a pobreza de espírito dessas pessoas que odeiam o que lhes é diferente? Como curar a doença das almas dessas pessoas que exterminam há séculos índios e negros por que se sentem superiores? Como explicar para aquelas pessoas que amamos que, endossando palavras e atitudes desse governo, ou mesmo repetindo pensamentos ignorantes que reduzem os povos indígenas a preguiçosos, estamos sendo tão violentos, autoritários e assassinos como esses que praticam o genocídio dos povos que formaram a nossa civilização?

Basta olhar fotos e vídeos com as palavras, rituais, danças, observar a relação que esses povos têm com a natureza para entendermos o que é beleza.

Enquanto os poderosos insistem que eles têm que ser civilizados, cada vez mais nos perguntamos qual o rumo dessa “civilização”? Nunca houve tanta pobreza no mundo, tanta gente sem acesso à comida e água potável. O próprio planeta já dá sinais evidentes de cansaço dessa praga que se transformou a humanidade. Vamos devorando os recursos naturais enquanto criamos palavras que nos dão ideias falsas como “descartável”.

Pois é com os povos indígenas que podemos aprender que nada é descartável, nada se joga fora, tudo o que se consome afeta nossa morada que é a Terra. E que, se amamos a vida, temos que ser cada vez menos “civilizados” e entender como cada um de nós pode se engajar nessa luta que é mais do que nunca urgente.

Precisamos salvar os nossos indígenas!

Para que assim possamos salvar a nós mesmos!

Renato Farias

Dicas do Blog: Alguns programa do Renato no Canal Saúde sobre este assunto.

Terras Indígenas:

Retrocesso nos Direitos Indígenas:


Eliane Potiguara


Aldeamentos Indígenas do Rio de Janeiro: