Quando a morte é a única saída...

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Para essa estreia como colunista no Ponto G eu saí procurando dados sobre suicídio e como estavam as estatísticas no mundo. Estava pesquisando por país, por idades, por gêneros, girando o cubo estatístico de diversas formas. Mas de repente eu parei… parei porque pensei comigo: “o sofrimento existe sob diversas formas e simplesmente não deveria haver suicídios e de que interessa uma estatística para aquele que está sofrendo e a morte é a única saída? Que se dane a estatística…”

A dor, o sofrimento, a decepção e principalmente a sensação de que tudo na vida é supérfluo, inclusive ela, dá o tom para se querer e poder por um fim da maneira mais drástica possível. E ainda assim o fazer com o duro peso que a maioria das religiões imputa ao ato e seu suposto terrível desenrolar no pós vida.  Acho que uma das grandes exceções sobre essa visão é o budismo. 

Ok, eu olhei as estatísticas… e o resumo é o seguinte: aproximadamente 1 milhão de pessoas tiram a vida todos os anos (esse numero se mantém praticamente o mesmo há alguns anos) e outras 10 milhões tentam o ato de alguma maneira.  Usando matemática simples, temos 16 suicídios para cada 100.000 habitantes do planeta ou uma morte a cada 40 segundos e se concentram principalmente nas pessoas entre 20 e 30 anos. E no Brasil, embora estável, é o 4º motivo de morte entre jovens de 19 e 29 anos. 

Embora os números contrariem a visão popular de que o suicídio está aumentando de forma alarmante, estamos falando em 1 milhão de pessoas! Querem saber a dimensão disso? É uma cidade de Campinas ou São Luís do Maranhão inteiramente morta por ano. Seria uma cidade de São Paulo devastada por década!

 O que eu acho que está levando a sociedade a achar que o suicídio está aumentando é pelo fato de que ele está mais próximo, acontecendo com pessoas próximas e por motivos que essa mesma sociedade vê como evitável e se coloca numa posição de choque por muitas vezes ter uma participação passiva no ato suicida de alguém. 

Até algum tempo atrás, o suicida era o louco ou o doente ou o drogado, ou tudo isso junto. Por grande culpa das religiões abraâmicas, era o criminoso, o pecador e o sem esperança no pós vida, ou seja, além do ser humano não conseguir lidar com seu sofrimento em vida, ainda teria que suportar o julgamento alheio na morte.  Mas vejam que os motivos listados acima são de certa maneira consoladores para a turba social. Afina, não somos médicos para curar o louco ou o doente e o drogado é um problema de saúde pública, em outras palavras: “a culpa não é minha e quem vai para o inferno não sou eu!”. 

Mas... a coisa mudou... hoje os motivos que jovens tiram suas vidas em sua grande maioria como alguns psicólogos nos explicam poderiam ter sido evitados se traços dessa tendência fossem identificados a tempo ou que a comunicação que se houvesse uma sólida e eficiente comunicação talvez a necessidade não existisse ou a solução fosse dada de maneira a ter um final que não fosse violento.  Creio que o que tem chocado a sociedade é a banalidade que a vida de outrem tem sido tratada, o que tem chocado é maneira que tratamos o outro e que há sim uma culpa coletiva ao redor daquele que tira sua vida, simplesmente porque não pode viver no sofrimento, nem na vergonha e nem dentro da mesma sociedade julgadora. 

A sociedade hoje se choca com o suicídio porque tem grande e extensa culpa justamente no que tange a essa banalidade julgadora pronta para agir a menos manifestação do contrário ao “bom senso”.  Hoje o suicídio está na porta ao lado e ficamos sabendo que a estatística bate com nossos filhos, com nossos familiares e conosco. 

Hoje o doente é o depressivo, doença desconhecida há até poucas décadas e essa depressão hoje é provocada muitas vezes pela simples ignorância de fatores sociais como o bullying e o preconceito. Embora não aumente a estatística, vemos que adolescentes se matam por exclusão social, vemos que gays se matam por exclusão social, vemos velhos se matando por exclusão social, simplesmente porque não podemos aceitar o que fomos impostos a não aceitar e então, julgamos e ... matamos.

E mesmo assim ainda tentamos lavar as mãos, porque mesmo diante do suicídio de uma adolescente dentro do colégio de nossos filhos, tentamos achar as razões do passado para justificar ou terceirizar a culpa: eu acho que era drogado, eu acho que tinha alguma doença, eu acho que já tinha propensão (essa é a mais ridícula). Mas nunca apontamos o dedo para o preconceito ou para o julgamento tendencioso. 

Eu como religioso tenho que colocar o dedo nessa ferida sob esse aspecto como prometido lá atrás. As religiões preconceituosas têm grande culpa na formação dos valores sociais que temos, claro que aquelas estatísticas ali em cima deixam claro que há de tudo na relação dos países com mais caso e menos caso e não dá para fazer qualquer ligação.  Por exemplo, o país com maior relação de suicídio por 100.000 habitantes é a Lituânia, um país com forte manifestação católica, mas no final do ranking dentre os que menos tem suicídios, estão países predominantemente islâmicos, ou seja, não dá para tirar qualquer informação qualitativa por aí. Porém, é claro e nítido que, não em termos de suicídio, mas em termos de preconceito e alijamento social, os valores conservadores estão no topo da lista. A exclusão social do ser humano “diferente” ou “fora do padrão” é o que está trazendo a notícia do suicídio mais para perto de nós. Pois a tecnologia nos trás a informação mais rápida e mais eloquente: alguém se matou porque os colegas implicavam com seu peso; alguém se matou porque era gay, alguém se matou por ter sido violentada; alguém se matou porque estava depressivo e “ninguém” percebeu; alguém se matou simplesmente porque a dor era insuportável. 

E sabendo disso, a quem a sociedade vai jogar a culpa?

Ah... no budismo não julgamos quem se suicida... apenas manifestamos nossa compaixão, pois mesmo o Buda teve dois monges que se suicidaram e ainda conseguiram atingir a iluminação instantes antes.

Mauricio Hondaku

Instagram @monge_hondaku

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Mauricio Hondaku

Um monge budista rock'n'roll, membro da ordem Shinshu Otani Higashi Honganji do templo Nambei Honganji SP.