O que te falta, também me falta

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Começo o papo de hoje lançando uma pergunta: como você lida com a escassez? Escassez tem por sinônimos ausência, carência, desprovimento, necessidade, privação, mesquinharia, avareza, entre outros. Provoco uma reflexão sobre a escassez por conta do momento delicado das últimas semanas, ainda presente, a greve dos caminhoneiros. 

Começam as manifestações e, logo em seguida, a ausência de combustível. Param estradas, abastecimento de alimentos, escolas, compromete os atendimentos nos hospitais, abala a rotina do trabalhador brasileiro. Ou seja, a escassez se estabelece. Mas a pessoa que está sentada no sofá ouvindo no noticiário sobre a greve, num primeiro momento não se abala até realmente a falta do combustível afetar a sua vida. E quando afeta a sua vida, como você se comporta?

Logo nos primeiros dias da greve eu estava viajando e peguei um motorista do táxi dizendo: “Não sei como você chegou aqui hoje, porque o Brasil vai parar”. Realmente eu entendo a gravidade do problema, mas há um certo pânico instalado pelo noticiário manipulado que vende uma urgência de sobrevivência. Pessoas foram para supermercados fazer “rancho” com medo de faltar mantimento. Compram tudo das prateleiras sem se preocupar se vai faltar para o próximo da fila. 

E te convido a fazer mais algumas perguntas: qual seu ponto de egoísmo na crise? Você vê um ponto de ônibus cheio e dá carona? Você se preocupa se seu funcionário vai ter como voltar para casa se ele for trabalhar? Você se preocupa em não desperdiçar alimento caso fique mais difícil de repor? Você pensa jeitos novos de se locomover, de se transportar, de consumir?

A escassez mal gerenciada gera pânico e, com isso, instala uma tendência grave a virar mesquinharia, avareza e, por fim, barbárie. É preciso estar atento aos momentos de crise porque são justamente eles que nos trazem reflexões a aprendizados poderosos. Estes dias me fizeram lembrar o livro de Saramago, o "Ensaio sobre a Cegueira": “Estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A única coisa que importa é o triunfo do agora. É a isto que eu chamo a cegueira da razão.”

Gaby Haviaras