Mulheres Submissas

Daniel Martin

Daniel Martin

No livro Submissão, Michel Houllebeck prevê uma França, já em 2022, politicamente governada pelo Partido Muçulmano, eleito democraticamente. Escrito em 2015, a leitura do livro no Brasil atual provoca reflexões assustadoras. Uma das grandes questões do livro, reforçada pelo título, é a posição da mulher na sociedade que, segundo o novo partido no poder, deve ser de submissão ao homem que, por sua vez, deve ser de submissão a Deus.

Desde o advento do monoteísmo, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo arrebanharam imensas quantidades de fiéis mundo afora. Cada religião com sua intensidade e estilo, misturou-se com política e determinou rumos e culturas nos seus países. Interferiu na relação de governos com seus cidadãos e deu o tom nas relações internacionais, muitas vezes resultando em guerras e disputas por lugares que entendem como sagrados.

O Brasil consagrou a laicidade em todas as constituições da República, inclusive na atual, de 1988. Mesmo assim Deus está lá, presente em outras partes do texto, assim como nas cédulas do nosso dinheiro. Imagens religiosas são frequentes em gabinetes de políticos e lugares públicos. Sem falar em expressões usadas praticamente por todos os brasileiros como “graças a Deus!” e “se Deus quiser”.

Historicamente, o país tem sido majoritariamente católico, massacrando a religiosidade dos indígenas que já estavam por aqui antes da invasão portuguesa e da população negra trazida à força para cá para trabalhar como escrava. Mesmo assim, a resistência dessas populações mantém viva a chama de suas religiosidades que, por terem características diferentes do monoteísmo, deveriam ser chamadas de espiritualidades. Afinal, esses povos não se desligaram do sagrado para terem que se religar. Religare é a palavra em latim que deu origem à palavra religião.

Hoje, são as religiões evangélicas que, numa velocidade impressionante, estão cada vez mais ocupando espaços políticos de poder. Cultos evangélicos são realizados em assembleias. Ocupantes de cargos públicos fazem apologia a suas religiões deixando bem claras suas intenções de privilegiar seus companheiros de fé tanto política quanto financeiramente. Ministros de Estado impõem suas filosofias religiosas como pretexto para cassar direitos de populações minoritárias como os LGBTs, assim como para justificarem graves retrocessos culturais e educacionais. Sem falar do fenômeno eleitoral das últimas eleições. Eleitores orientados por grandes líderes evangélicos determinaram viradas de última hora, consagrando políticos declaradamente ligados a essa religião.

Em relação à submissão, um fato recente pode ser considerado emblemático: o brado, divulgado para todo o país, da ministra que determinava a retomada do rosa para as meninas e do azul para os meninos. O que inicialmente pareceu folclórico pode esconder o ovo da serpente.É assim que começa a consagração da submissão da mulher como pilar dos valores da nova sociedade.

O que se espera é que a mulher retorne a seus tradicionais papéis de dona de casa e cuidadora dos homens. Para que os homens possam, confortáveis em seus machismos “aprovados por Deus”, seguir expondo suas ignorâncias e violências e destruindo o que lhes parece diferente por se sentirem ameaçados por qualquer diversidade.

Triste o futuro de um país em que pessoas, para justificar intolerâncias, violências, assassinatos e manifestações de ódio, precisam recorrer a Deus. E, mais triste ainda quando o destino do país está submetido a essas pessoas e suas ideias.

Sugestão de programas sobre o assunto: 

POLÍTICA E RELIGIÃO:

https://www.youtube.com/watch?v=YL1h7t78dsw

ENSINO RELIGIOSO NAS ESCOLAS PÚBLICAS:

https://www.youtube.com/watch?v=EZkEgx15tj8

Renato Farias  

@fariasre