Mexa-se e mude

Retirantes - Portinari

Retirantes - Portinari

Nada como a realidade batendo à porta para refletir sobre a vida e colocar os pés no chão. Sento para escrever hoje em meio a caixas, malas, móveis desmontados: estou me mudando! Não só de um apartamento para o outro, mas de cidade, de ciclo de vida. E o vazio da casa é invadido por pensamentos e reflexão. Com o computador sobre o colo, aqui do meio da poeira do passado, selecionando com o olhar o que era e o que continuará sendo, penso: mudar nem sempre é fácil, mas é o melhor momento para colocar muitas coisas fora, reciclar escolhas e dar novos rumos. 

Quantas vezes, em uma mudança, você não achou coisas perdidas há tempos? Objetos que te fazem lembrar pessoas e lugares? Mudança é o teste do desapego. Você tem medo de mudanças? Pois eu tenho medo que as coisas não mudem!  E aí está o grande desafio deste “abismo”, esta sensação real que a mudança traz: o “estar sem chão”. Que, no caso de uma mudança de casa, é literal. No meio de caixas e adaptações, se sai melhor quem aprende a levitar! 

Uma mudança deixa para a gente significados daquela casa, o que se passou ali, as festas, as brigas, as solidões vestidas de domingo chuvosos. Traz à tona nossa maneira de lidar com os apegos e desapegos, com o sentimento de pertencimento a aquele metro quadrado, que, mesmo alugado, você chamava de seu! Sempre que mudo de “chão”, entro em contato com todas as casas que passei e seus valores afetivos, um momento real para rever espaços internos. 

Tem uma frase do Érico Veríssimo que gosto muito: “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”. Ah, os moinhos de vento! A casa nova, a nova possibilidade, um cheiro de novo no ar, o readaptar-se a tudo. Até um jeito novo de tomar banho no chuveiro novo! O jornaleiro novo, o pão da padaria do outro bairro. Uma sensação de limpeza na alma com tudo que ficou de desapegado para trás, sem mais poeira velha, tudo pronto para uma nova história. 

Mudanças estão ligadas a movimentos e movimentos são sempre bem vindos, nos recolocam no nosso espaço afetivo, nos fazem refletir sobre valores, em relação a pessoas e coisas. E mais, nos recobram coragem!

Mudanças acontecem a todo momento, não precisa ser só quando se muda de casa. Mudar de trabalho, mudar de caminho, mudar de roupa, de amor, de cidade. Como diz o poeta “tudo muda o tempo todo no mundo”. E, se você não se deu conta disso, mexa-se e MUDE! 

Obs: A imagem que ilustra a coluna é de Candido Portinari, da série retirantes. Um dos objetivos aqui da coluna é a troca de dicas culturais. Claro que Portinari dispensa apresentações, mas sempre pesquiso artistas novos para trocar com vocês. E se você tiver uma dica manda para cá. Bj

Gaby Haviaras