Me dá a sua mão?

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Na semana da mulher no Blog*G nosso colunista Arthur Spada convida Fernanda Darcie, advogada, feminista e bissexual!


Este espaço foi cedido pelo meu melhor amigo, Ar(Thur) Spada. Amigo de escola, de faculdade, de profissão, de sangha...de vida!

Me perguntei se deveria seguir o perfil de sua coluna, jurídico, mas decidi por escrever sobre aquilo que está no cerne de minhas reflexões há alguns meses.

Peço desculpas se alguma expectativa for frustrada em função disso, mas já me coloco à disposição para temas do direito, uma vez que estudo e trabalho com Direito das Diversidades e Mulheres.

Passado esse dilema, também me questionei se deveria falar em primeira pessoa, ou deixar o conteúdo do texto mais impessoal. Vamos ver no que isso vai dar...

Quando digo que sou uma mulher, casada com outra mulher, constantemente recebo o seguinte comentário: “mas nem parece” - é esta frase um dos “elogios” mais recorrentes.

Elogio? Para o interlocutor é certamente assim que a frase soa.

O mesmo é verdade para diversas pessoas LGBT+, por um simples motivo: quanto mais a sociedade te lê como heterossexual e cis, menor a probabilidade de você sofrer a violência LGBTfóbica.

Além disso, se adequar aos papéis e à expressão de gênero que nos são impostos de acordo com nossas genitálias é de grande importância para a manutenção da lógica heteronormativa operada na sociedade. O raciocínio também é introjetado nas próprias pessoas LGBT+.

Neste sentido, não “parecer sapatão” certamente me proporciona uma série de privilégios. Não sou alvo de violência homofóbica quando ando sozinha pela rua simplesmente por minha aparência física. (não adentrarei nas questões de violência de gênero, para não desviar do assunto)

Um outro aspecto deste dilema é a Bissexualidade. Sempre invisibilizada, quer pela heteronormatividiade, quer pelo próprio movimento LGBT+. Somos julgados de indecisos, promíscuos, em cima do muro...quando o que fazemos é amar, independente do gênero da outra pessoa.

Voltando à violência, me deparei recentemente com um grande questionamento interno.

Por muitos anos, acreditei ser tão privilegiada a ponto de não perceber as pequenas violências que nós LGBT+ somos submetidos diariamente.

Desta vez não me refiro à violência advinda de agressões físicas ou verbais, mas às “pequenas” privações que nos submetemos. E me aterei, à título exemplificativo, a apenas uma delas.

As nossas mãos...

O ato de dar as mãos é possivelmente o ato mais singelo e carinhoso – damos as mãos aos mais velhos para atravessar a rua quando pequenos, damos as mãos para formar uma ciranda, damos as mãos aos nossos amores, como um ato de união e passagem de corrente de energia entre nossos corpos.

Nada obsceno. Nada sexual. Apenas, dar as mãos.

Não pensamos na grandiosidade deste ato, no prazer e satisfação que ele nos traz, até sermos tolhidos de sua prática.

Na teoria, tecnicamente, todos temos o direito de andar de mãos dadas. Isso parece perfeitamente óbvio.

É mesmo?

(...)

“Casal gay é esfaqueado enquanto passeava de mãos dadas”.

“Casal gay é agredido por andar de mãos dadas ao voltar de Parada LGBT de Miami”.

“Dois terços da população LGBT teme andar de mãos dadas nas ruas, diz estudo”.

Com bastante dor no coração...essa foi a nossa escolha.

Não andaremos de mãos dadas em público. Nossas irmãs e nossos irmãos já foram agredidos por este ato. Nos amamos e não queremos ver uma a outra na lista das estatísticas.

É um boicote à luta ou uma forma legítima de proteção?

Precisamos viver do ativismo, dar nossa cara a tapa ou temos o direito de tentar preservar nossa integridade física e nossas vidas?

Nossa existência incomoda, nossa existência é violenta. Vivemos, resistimos e lutamos diariamente.

Sim, por mais que possamos “não dar pinta”, a homofobia irá nos atingir. A homofobia já nos machuca. A homofobia já nos tolhe e nos impede de viver em nossa plenitude.

Talvez o primeiro passo seja a empatia. Entender o meu privilégio, como pessoa branca e cis, não pode me impedir de ter empatia com pessoas negras e trans.

Pedimos empatia, pedimos respeito, pedimos espaço...podemos viver? Podemos nos amar? Podemos nos tocar?

De mãos dadas somos mais fortes!

Fernanda Darcie


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Fernanda Darcie é bissexual, feminista,

Advogada com especialização em Direito Criminal e Direito das Diversidades,

Atualmente presidenta da Comissão de Diversidade Sexual da OAB de São Caetano do Sul – SP