Mané de carteirinha

#19 floripa.jpg

“Vou te disete uma coisinha pra ti!”, fim de ano é a mesma coisa, quem sabe que sou de Floripa me pede sempre dicas e informações para passar as festas e férias na ilha!! Sempre dou dicas mais locais e também comento que é pra se benzer pois é a ilha das bruxas e também que o antigo nome era Ilha do Desterro.

Ilha do Desterro, tão cheia de tradições, histórias, “causos”, folclore e até um vocabulário próprio! Lugar de boa comida, gente acolhedora, paisagem deslumbrante. Tão cheia de encantos que hoje em dia qualquer mané anda dizendo: “Gostassi? Tira um retrato, vorta pro europorto, que aqui já tem genti dimax escangalhando nossa terra”!!!! O tempo passa e nossa ilha não é mais a mesma!

Florianópolis não é mais a menina dos olhos dos poetas, cresceu, edificou-se, estufou-se e transborda por suas margens. Estradas de terra viraram rodovias, praias de veraneio viraram grandes bairros. Floripa está na mídia, tem celebridade visitando a ilha, querendo comprar, vender! É a menina dos olhos da pechincha imobiliária, do comercio dos gringos, rota de fuga dos concursos públicos das grandes metrópoles. Enquanto isso o verdadeiro mané da ilha “mofa c´a pomba na balaia”!

O que fazemos para manter tradições? Raízes? Memórias da nossa cidade? Será que a ilha ainda tem a chance de guardar sua historia provinciana? Sua geografia e meio ambiente? Ou já se vendeu para alçar voos de grande capital? Muitos artistas eternizaram este“pedacinho de terra perdido no mar”: Cruz e Souza, Franklin Cascaes, Luiz Delfino dos Santos, Zumblick, Vitor Meirelles, Zininho entre tantos outros manés. Quem falará deles e de suas obras?

Quem falará do Boi de Mamão, da Bernunça e da Maricota? As rendeiras sentadas pela avenida?  Quem se lembrará do Ponto Chic, do Bar do Alvin no Mercado Público, o Roda Bar, Bar Katcipis, o Miramar, o Kuxixos, lugares onde muitos causos e lendas ficaram para história. As turmas da cidade: do muro da Mauro Ramos, do Quiosque, da Marquise. A empadinha da Confeitaria Chiquinho. A noite da cebola na Dizzi, os bailes do Lira e do Doze.  O clássico Avaí e Figueirense no Adolfo Konder com direito a cerveja no Topazio.  

A antiga ilha dos arrastões na alvorada nas praias, quando se podia transitar noites inteiras a pé, de um lugar para outro depois de assistir um filme no São José, no Ritz, no Glória, no Jalisco, no Roxy, no Carlitos ou no Cecontur.. Quando se ia à praia na Lagoa da Conceição e depois tomava um sorvete de butiá na Satélite ou Ilhabela. Tempos que se comprava na “venda” um tablete Dalva e uma Max William para levar no passeio de bicicleta no aterro da Baia Norte na escolinha de transito. E depois parar no “brec” Kays Ki Dum para lanchar com a bandeja na janela do carro e ser atendido pelo Beleza, que vamos combinar, vão deixar saudades em algumas gerações!

Que sejam eternos, o “rancho de amor à ilha” na subida da Lagoa da Conceição, as pedras “bruxas” de Itaguaçu, o vento sul. Porque mané que é mané ama o “vento suli”.  A ponte Hercílio Luz será eterna, em foto e na novela de sua reforma sempre protelada. Eterna na historia da minha família, quando Jorge Haviaras, mergulhador vindo da Grécia, edificou seus pilares no fundo do mar. E será eternamente uma ilha!

Saudosismo? Puro saudosismo e boas lembranças de onde nasci e para onde sempre volto, penso nisso e volto com saudades todo fim de ano. Não me oponho ao crescimento, aos novos tempos. Mas que venham com carinho se aportar neste local tão especial. Que os que chegam aprendam a amar e respeitar esta “ilha da moça faceira, da velha rendeira tradicional, ilha da velha figueira, onde tarde fagueira, vou ler meu jornal”!

Gaby Haviaras