Feliz Ano, novo ou velho

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Ano Novo, intervalado pelo Velho. Tão esperado momento para renovar energias, pensamentos, hábitos, inscrições na academia, regimes e uma lista de expectativas fresquinhas. Roupas coloridas, comidinhas promissoras, amuletos poderosos, sete ondas, tudo vale na tentativa de atrair sortes para sermos felizes, sempre felizes. Precisamos ser felizes, sempre? A todo instante e lugar criamos narrativas pelo desconhecido e para o desconhecido com mecanismos inusitados a justificar nossos anseios. Recentemente ouvi de um amigo psicanalista: o mundo não é como eu vejo, mas como eu sou. E podemos dizer tanto desta simples frase. Afinal, nos construimos e desconstruímos constantemente.

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Na virada do ano, os templos budistas japoneses tocam o Bonshô (sino grande) 108 vezes lembrando-nos como as aspectos humanos eclodem e reverberam em desejos por meio dos Seis Sentidos: visão, audição, olfato, paladar, tato e consciência (o budismo considera a consciência como um sentido) e simbolizam também o toque de despertá-los em virtudes. O intuito é nos fazer alerta, presente e transmuta-las, pois certamente podem resultar em sofrimentos. Há quem diga as 108 badaladas servem para purificar o novo ano. Assim esperamos. Se purifica, eu não sei, prefiro a interpretação a qual me fazer lembrar ser alguém susceptível aos erros das minhas paixões. É mais realista dentro das minhas responsabilidades como indivíduo em sociedade. Sejamos como o peixe que dorme de olho aberto ou o lema escoteiro - sempre alerta.

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O número 108 deriva de uma conta simples multiplicando cada um dos seis sentidos por três reações - positivas, negativas ou neutra, resultando em 18 desejos reagidos. Cada desejo pode estar ligados ou separados ao prazer, então multiplica-se por 2, total de 36. E cada um deles se manifesta no passado, presente ou futuro, portanto multiplica-se por 3, resultando 108. Este mesmo número encontramos nos rosários de contas dos monges. Rosários são instrumentos antigos de diversas religiões, servem para marcar tempos de recitações ou meditações. Ele nos faz lembrar ainda que tudo e todos estão interconectados por um só fio interno, o fio da Vida.

Mas fica a pergunta, consigo me livrar dessas paixões? Raro é extirpamos as paixões mundanas, elas são como ervas daninhas ou cabelos, uma vez cortados nascem novamente. Porém possíveis de serem capinadas com a Atenção Plena ou Correta, a fim de cultivar uma mente tranquila e serena sem se subjugar pelos impulsos resultando em sofrimento. Veja que isso não é um dogma, mas uma prática que ameniza nossas inquietudes. Estar desatento à esses desejos não resulta em pecado ou castigo divino, apenas sofrimentos, o seu próprio karma tolhidos pela nossa visão distorcida. E a falta de uma visão atenta ainda nos leva aos Três Venenos mentais - a ignorância, a ganância e a ira, origem de nossas angústias, dificuldades, tormentos em si. Por ignorar X, levo-me ao desejo de ter Y e não correspondendo à minha expectativa, leva-me à ira Z.

A oportunidade não vem dos céus, porém temos toda liberdade de construir uma narrativa a todo instante, depende de você e sobretudo das causas e condições propícias ao seu redor. Pois é, caro leitor, não basta apenas você querer, é preciso entender/aceitar nossa interconectividade e codependência de inúmeros fatores. É o que se chama de livre arbítrio, mas o budismo nos diz ser uma atitude iludida. Em um post qualquer eu li estes dias: 100 expectativas, 100 frustrações, sem expectativas, sem frustrações. Complicado, não? Ainda mais quando nos apaixonamos por alguém. Podemos dividir um pouquinho a conta para nossas culpas e saborear aquele friozinho na barriga do  próximo encontro, tipo 50 de expectativa e 50 de frustração? Talvez doa menos e eu curta como é gostoso me apaixonar, mas existe um precinho camarada no pacote. Caminho do Meio.

E que narrativa você quer para este ano novo? Uma narrativa saudável ou viciosa, compassiva ou egoísta, amorosa ou raivosa, pacificadora ou aterrorizadora, generosa ou avarenta?  E se eu errar, tudo bem? Sim, o local que eu tropeço, eu caio, é o mesmo onde me levanto. E escolha não se arrastar pelo chão, apenas levante e siga em frente, sem remorso, sem culpa. Não dependemos de deuses para seguir adiante, dependemos de nossas atitudes, de uma mudança de estado mental. Entretanto, é importante aprender com os erros, caso contrário eles podem se repetir não como um castigo por desobediência, mas por sermos simplesmente ignorantes na sua mensagem. Os ensinamentos estão à nossa volta, basta percebê-los.

E entender a si mesmo é entender como o outro funciona. Por vezes é como olhar  para a medusa, nos petrificamos internamente horrorizados, e preferimos o espelho. Não precisamos ser todos iguais, mas funcionamos de modo parecido com engrenagens e tempos diferentes, o famoso “modu operandis”. E nossa tentativa de julgar vai por água abaixo. Sou desarmado imediatamente. E deste ponto, desperta a tolerância e a compaixão. Tolerância não é engolir sapos ou ser um condescendente banal, tampouco acatar injustiças. É compreender sobretudo as diferentes possibilidades da vida manifesta. Compreender é aceitar, termo de conotação derrotista no ocidente. Aceitar é acatar como o outro é e como o outro está, não ser indiferente às injustiças, violências, crimes nem um vitimismo simplório. Difícil tarefa do exercício da tolerância? Um bocado, mas urgentemente necessário.

As 108 baladas servem para isso, e que sejam tocadas a cada amanhecer dos nossos dias vindouros.

Precisamos nos reeducar para o respeito e para o coletivo, não para uma obediência cega através do medo de uma narrativa. Ela é apenas uma narrativa, criemos uma nova libertadora.

Que este novo ano seja manifestado de Compaixão, Tolerância, Bondade e Generosidade.

Feliz 2019.

Namu Amida Butsu

Gassho 

Rev. Jean Tetsuji釋哲慈
www.amida.org.br