Feliz Ano Novo!

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Ontem entramos no novo ano astrológico, numa nova estação e creio que muita coisa se renovará. Senti que algo estava mudando com muita força na última quarta-feira, dia 15 de março. Na verdade, a pauta para hoje não seria esta, mas com tamanho acontecimento mudei o rumo da prosa.

Antes, um breve relato sobre a última quarta-feira: fui ver uma exposição que há muito estava para ver, chamada Ex Africa, no CCBB-RJ, com artistas contemporâneos africanos, questionadores e poéticos. Junto comigo, estava meu novo presente da vida: Adriano, irmão de Tom. O Tom é o afilhado que perdi em 2017 assassinado; jovem, negro, de periferia, irmão do Adriano, o presente. Caminhávamos pela exposição, e eu me encantava com o que viam seus olhos de menino. Sua cultura tão rica, tão perto e tão longe. Ele protagonista e eu coro! Adriano dialogava sobre o que lhe arrebatava e pertencia e perguntava porque o homem tenta descascar a cor inabalável com que nasceu. E perguntava: será que acabou? Saiu dali dizendo: “quero começar um movimento cultural negro na minha praça, com a minha galera, entende? A gente tem voz!”

Saí dali à noite, entrei num táxi, pois no centro da cidade do Rio de Janeiro não há de se confiar. Ao entrar no carro, senti uma vulnerabilidade, uma tontura, um medo não meu, um jeito estranho da noite chegar. Aportei em casa para trabalhar e, pouco tempo depois, salta na luz do celular: “assalto com dois mortos no centro do rio”. Pensei: nossa, estava lá agora. Um arrepio na espinha e o Twitter avisa: “A vereadora Marielle Franco foi executada”. Oi??? Eu saio de uma exposição sobre cultura africana, e após uma conversa sobre ser negro no Brasil, uma mulher negra é assassinada na esquina ao lado? Por quê?

O cenário da madrugada que se seguiu foi uma tempestade seca sobre a cidade de braços abertos e corpo estendido no chão. Como mãe que só dói, mas não escorre, porque a dor secou o que havia de chorar. O céu roxo pintado de raios elucidava uma força maior como se dissesse: mexeram comigo. Não dormi. No dia seguinte descubro que muitas mulheres da cidade passaram mal, não dormiram, ficaram de vigília. Algo naquela execução enlaçou todas nós pelo útero, um miasma coletivo feminino se deu, no exato momento do estopim em Marielle.

Ah! as mulheres e suas bruxarias. Desde que o mundo é mundo, os homens que não conseguem explicar nossas dores, intuições, forças, atitudes, gestação, sexto sentido, nos rotulam de bruxas, loucas, sem sentido. Estes mesmos homens tem dificuldade de ver uma mulher no poder, com voz, atitude, coragem, colocando o dedo na ferida. Todas nós, mas principalmente se ela for negra, gay e empoderada. “Que audácia”, bradam os de pouca inteligência, os covardes. E continuam a urrar sem argumento, a caluniar pelos sete cantos das redes sociais. Nesse momento me pergunto, e se Jesus tivesse ido pra cruz neste último dia 15 de março? O que falariam dele nas redes sociais hoje? Quais calúnias? “Defendeu bandido, tem que morrer”. Talvez com ele os memes fossem até menos cruéis porque, afinal, era homem.

Mas, apesar de tamanha crueldade, dos discursos de ódio e da bipolarização midiática do poder, eu fico com as mulheres e nossas guerras.  Creio que esta nova estação trará bons ventos e, claro, novas tempestades. Desde a última quarta-feira, quando nasceram muitas outras Marielles no Brasil. Mulheres, de todos os guetos, favelas, vozes, idades, cheias de palavras e atitudes.

Saiam da frente que nós vamos passar! Marielle? Presente! Mulheres? Presente!

Gaby Haviaras