Dia Internacional do Teatro: O que há para comemorar?

João Cabral - Teatro Íntimo 2015 - Sede das Cias (RJ) | Em cena: Caetano O'Maihlan + Rafael Sieg + Gaby Haviaras + Raphael Vianna

João Cabral - Teatro Íntimo 2015 - Sede das Cias (RJ) | Em cena: Caetano O'Maihlan + Rafael Sieg + Gaby Haviaras + Raphael Vianna

Dia 27 de março comemoramos o dia internacional do teatro. Cabe a pergunta: o que há para comemorar?

Há alguns anos, vivemos no Brasil uma bem-sucedida campanha de desqualificação dos artistas. Mas o que há por trás dessa campanha?

Como quem trabalha com a arte tem os olhos bem abertos para a complexidade humana, historicamente são os artistas que levantam questionamentos sobre as sociedades e seus rumos. Seus trabalhos e suas opiniões instigam as pessoas a perceber o quanto o conservadorismo e a “caretice” escondem a repressão social e individual. Vergonhosas exceções são bem conhecidas, não cabendo nesse texto enumerá-las.

Não é difícil perceber que os líderes desses movimentos de desqualificação dos artistas são movidos não só por um projeto hipócrita de poder, mas também pela dificuldade de lidar com os próprios desejos.

Assim, foi criada uma mentira a partir da Lei Rouanet recaindo sobre os artistas uma falsa imagem de vagabundos e aproveitadores do dinheiro público. Mentira que desconhece como a lei funciona, ignora a quantidade de trabalho que é necessária para levantar um espetáculo e faz parecer superficial a importante discussão sobre financiamento público da arte e da cultura, inclusive para corrigir possíveis distorções da referida lei.

Por outro lado, a imensa maioria dos artistas brasileiros nunca teve acesso à Lei Rouanet. Tampouco teve algum dinheiro público para criar seus trabalhos. Ainda assim, segue, por vocação, dedicando seus dias e noites, sua criatividade e força de trabalho para criar espetáculos, performances e eventos onde o ser humano possa se espelhar e expandir sua visão sobre si, sobre os outros e sobre o mundo.

E é justamente isso que incomoda os conservadores, seus representantes políticos e os que aliam religião com política. Não querem um mundo expandido, não querem pessoas com senso crítico. Ao contrário, necessitam de um rebanho que se sinta feliz em repetir padrões e perseguir os que representam a diversidade e os que ousam viver em busca da liberdade de ser e se expressar.

Portanto, devemos comemorar que, apesar dos tempos sombrios, o teatro permanece vivo e pulsante. E isso, muito além das grandes cidades: nos grupos de teatro amador das cidades pequenas, nos festivais, nas universidades, nas aulas de teatro dos currículos progressistas de escolas públicas e particulares e, também, no trabalho de profissionais que, mesmo sem editais e patrocínios, seguem inventando formas de fazer arte e fomentar a cultura.

O teatro já teve sua morte decretada inúmeras vezes. No surgimento do cinema, da televisão, das formas digitais de entretenimento. Mas, por mais que as plateias tenham sido diretamente afetadas por outras formas de fazer arte e diversão e, até, pelo apelo catártico de algumas religiões, o teatro não só sobrevive como se aprofunda cada vez mais na sua identidade. E torna-se cada vez mais potente naquilo que só ele pode oferecer: a experiência direta do encontro do artista com seu público.

E aí reside seu maior potencial e seu maior “perigo”. No contato direto, quem vai ao teatro pode ser afetado de uma maneira única. Pode rever seus atos, suas crenças e sua forma de reagir aos problemas do cotidiano e da existência. Pode ser encorajado a destruir os padrões que o limitam, em busca de sua verdadeira identidade. E a entender que a realização humana está justamente no enfrentamento das suas contradições e não na compreensão rasa de que, por exemplo, meninos devem agir de uma determinada maneira e, meninas, de outra. Ou de que a sexualidade só tem por objetivo a procriação. Ou de que há um lugar específico para as mulheres. Ou de que há seres superiores aos outros. Ou, ainda, de que existem cidadãos de bem encarregados de preservar a moral e os bons costumes.

Então, há muito o que comemorar, pois mesmo nas sociedades mais repressoras, sempre haverá alguém que vai enfrentar todos os riscos para contar uma história onde as emoções estarão presentes. E para lembrar que, apesar dos pesares, outro mundo sempre é possível.

Renato Farias

Instagram @fariasre + diretor da @teatrointimo