A tolerância religiosa como exercício da paz

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Olá a todos, como vocês estão? Gostaria de pontuar um pouco mais sobre diversidade religiosa referente ao encontro na Catedral da Sé em dezembro. Temos vivido cenas políticas inusitadas ultimamente incutindo seus valores morais na esfera dos direitos humanos e da pluralidade social. Muitos conflitos morais/ sociais, creio eu, resultam inevitavelmente dos dogmas de uma crença em como o todo deve ser e agir. Os chamados preconceitos tem sua raiz nesses elementos. E uma hora dá curto-circuito. Tem ocorrido recorrentemente encontros interreligiosos com entidades como Ministério Público e OAB apoiando os termos legislativos a fim de assegurar e proteger do exercício religioso diverso.

Você sabe o que é uma teocracia? Teocracia é um governo ditado por regras morais de uma única religião, sem possiblidade de outras crenças interferirem por não terem significado àquela que normatiza. Só que a história humana é composta de indivíduos com diferentes narrativas sobre o mesmo e complexo assunto: a vida. Por exemplo, alguém pode pensar - a Bíblia não me representa, nem Jesus Cristo. Talvez muitos se choquem com esse pensamento. Mas os Vedas, o Alcorão, os Sutras, os deuses xintoístas, os ritos aborígenes e indígenas, as Wicas e os Orixás não representam muitos cristãos. E por que não nos chocamos com isso? Diversidade religiosa é legítima, saudável e democrática nas diferentes formas e leituras, afinal na minha crença o personagem e a narrativa são diferentes em vários conceitos, princípios, dogmas e ritos. Porém, muitos reprovam e entendem haver apenas uma única forma correta de pensar - a sua. 

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Historicamente, a imposição religiosa resultou em muito derramamento de sangue, sejam por guerras, perseguições ou inquisições. Certa vez ouvi uma frase: na história da humanidade, nunca se matou tanto em nome de Deus. Curioso, não? É para se refletir. Não há nada de sublime, auspicioso ou belo quando o outro é diferente de você, até lhe incomodar na maneira de pensar e ampliar (ou anular) suas  possibilidades. Vale lembrar que em épocas tribais e feudais conquistar o outro, mesmo em nome de Deus, era uma questão de sobrevivência, de política, de estratégia geográfica ou de conquista territorial.

Uma religião somente tem valor se você estiver nela inserida e seguir suas regras de como viver, como pensar, o que comer, como rezar e para quem rezar e até como transar. E as leis sociais, de um país laico como o Brasil, jamais podem serem ditadas por regras religiosas unilaterais, mesmo que a maioria de um país seja de determinada religião. A lei deve ser imparcial à moralidade religiosa. Precisamos, como já disse anteriormente, pensar eticamente no coletivo e não na maioria. Todas religiões são válidas e inválidas ao mesmo tempo, depende de que lado você está. A Bíblia não tem sentido para os brahmanes, os Vedas para um católico, os Orixás aos evangélicos são coisas do demônio, Buda para um muçulmano é uma afronta ao sagrado. 

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Tempos atrás eu assisti ao filme O Silêncio, onde conta a história de três padres missionários no século XVI em Nagasaki, Japão. Até metade do filme você fica com ódio dos japoneses torturando os pobres padres. Mas ao final, e já sendo spoiler, você entende que a mesma tortura era sentida moralmente pelos japoneses ao ver seus Budas, deuses xintoístas e templos aniquilados como inverdades, imoralidades e falsidades ao Sagrado pelos padres. Entenda, não estou defendendo a tortura, mas analisando o contexto do filme. A pior coisa que uma religião pode praticar é o proselitismo, a conversão coercitiva. Vimos no passado com missionários jesuítas, e mesmo hoje evangélicos convertendo índios, extirpando sua narrativa sagrada, seus ritos e seus deuses. Isso é desrespeitoso e inaceitável. É como uma homogeneização sacral.

O que estamos vivendo no discurso político é uma tentativa de teocracia, ditando regras de como o indivíduo e a sociedade brasileira devem ser, pensar e agir. De forma bem fundamentalista e brutal, vemos tribos africanas deter meninas como escravas sexuais ou radicais islâmicos apedrejarem uma mulher por ela ser culpada do próprio estupro coletivo. Indignados? Mas é assim que a teocracia e o fundamentalismo se alastram silenciosa e disfarçadamente. Há religiosos de profundo sentimento messiânico, há aqueles que respeitam a pluralidade e consideram os demais. Tolerância, esse é o exercício central. A crise resulta no debate da diminuição da liberdade de pensamentos e direitos sociais pelo viés mono-religioso. 

Estejamos alertas, em algum momento a teocracia pode atingir a sua liberdade até então quieta ou a de seu amigo/ filho lgbt+, o seu querido vizinho umbandista, o distante indígena há séculos aqui e considerado invasor de terras. E todo esse emaranhado de pensamentos insalubres resultar em atentados, violências, sofrimentos, mortes. Ou seja, tudo que foge ao padrão normativo de determinada religião. E sim, precisamos falar abertamente que paira uma moralidade tentando tomar conta desse país como uma propriedade, e não como uma nação laica e legítima a todos.

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Gassho 

Rev. Jean Tetsuji釋哲慈
www.amida.org.br

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