Assumindo o dever de viver

Cecily Brown

Cecily Brown

Não costumo escrever em primeira pessoa. Talvez por vício profissional ou por tentar manter um certo distanciamento e imparcialidade com o que coloco no papel. Peço licença para, hoje, me colocar aqui por inteiro. O que pretendo dizer é antes de tudo, um apelo que emerge mais do íntimo, da emoção, antes que da razão. Por isso as ideias ainda não nasceram completamente enquanto escrevo, tão pouco posso assegurar onde vou chegar.

Também quero que essa coluna seja, ao menos hoje, uma conversa. Por isso falo de mim, diretamente ao meu interlocutor, que é você. Quero que seja uma conversa, não só em razão da importância que acredito ser o tema merecedor, mas porque aprendi esses dias que ao fazer uso da linguagem falada, nos colocando inteiramente no que dizemos e sentido os efeitos do que foi dito, apesar de ser raro de acontecer, permite que o outro (aqui, você) não se torne mais indiferente e entre em nosso circuito de afinidade, o que torna a escuta verdadeira. Além disso, a fala tem um tempo de reflexão, pausa e emoção próprio, diferente da linguagem escrita. Espero que a leitura de hoje se aproxime desse tipo de escuta e se torne uma conversa verdadeira (a qual podemos prolongar na caixa de comentários e, quem sabe, ao vivo um dia).

Havia pensado em outras coisas para discorrer aqui hoje, mas optei por apresenta-la sem outro momento, posto estar tocado pelas tragédias que nos acometeram nos últimos dias – as mortes nas enchentes no Rio de Janeiro, as crianças que perderam suas vidas no incêndio do Flamengo, a perda repentina e inesperada de Ricardo Boechat e a de Bibi Ferreira, esta última ainda que natural, de todo trágica, posto estarmos demasiadamente necessitados de arte. Essas tragédias me fizeram refletir sobre estar vivo e, em especial, sobre o dever de viver e o duplo resultado dessa concepção.

Quando falo em dever de viver, não quero dizer que há uma obrigação imposta, normativa, de cujo descumprimento emerge alguma punição. Falo em dever em dois sentidos principais; o de estar sujeito a algo e o de devotar-se.

Estamos sujeitos a viver, e o ordenamento jurídico reconhece isso. A Constituição Federal, em seu artigo 5º, afirma ser a vida inviolável, e ela é o suporte necessário para o exercício de qualquer direito. Aliás, é com a vida com ela que começa nossa personalidade civil, como está estampado no artigo 2º do Código Civil, ou seja, ao nascermos, ganhamos uma série de direitos e obrigações. (Faço esses breves comentários para honrar com os motivos que me trouxeram a escrever nesse espaço, enquanto profissional do direito, embora continue com o coração a frente).

Reafirmo que não quero tornar a vida uma imposição, não é esse o objetivo, sobretudo por me compadecer daqueles que vem a vida como algo trágico e insuportável. Para estes, também acho que a concepção enquanto dever – nas bases que traço, ou pretendo traçar – pode oferecer algum tipo de acalento.

Falo da minha própria trajetória, pois percebo que quando comecei a me obrigar e a devotar a vida (assumindo um dever, portanto) comecei a compreender sua importância, e como consequência entendi a necessidade de agir em prol do outro, dos outros e daquilo que nos cerca. Aqui reside o duplo resultado que falo. Explico. Em princípio, para que haja um dever, há um polo obrigado e outro que recebe o seu proveito, ou que é o objeto da devoção. Todavia, o dever de viver beneficia, em primeiro lugar, aquele que dele se obriga. E ao experimentar esse resultado, emerge a vontade de o oferecer aos outros.

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Para que a vida exista, devemos respirar ininterruptamente, nos alimentarmos de forma saudável e manter nosso corpo em constante movimento. Estamos obrigados a sempre respirar, mas o fazemos sem perceber. Isso também acontece com o dever de viver, pois esquecemos dessa obrigação e acabamos por não nos comprometermos, de modo a não honrar com esse compromisso ético conosco.

Os eventos trágicos dos últimos dias me fizeram perceber que a única forma de darmos sentido para nossa existência é assumindo esse dever de fato, de modo a nos obrigarmos por completo. Boechat se obrigou com a vida, e é o que a manifestação de todos que o conheceram deixa transparecer.Assumir esse dever não o livrou de uma depressão, mas certamente permitiu que ele a superasse de maneira potente. Trabalhar com vigor, respeitar o outro, ser leal e solidário me parece ser resultado dessa obrigação que assumimos com/para nós mesmos. O faço para mim. Sou fiel por estar dedicado a mim. E ao me colocar em primeiro lugar, torno possível me estender ao outro.

O dever da vida é nosso, não é da profissão, da família ou dos conhecidos, e por isso assumimos ele para nós e não para os outros. Mas repito, que ao assumirmos essa obrigação, a humanidade que emerge em nós – e que emergiu em mim – nos aproxima dos outros e nos permite olhar com sinceridade ao próximo. Peço que você se abra para sentir isso.

Ao abrir os olhos pela manhã e ao levantar da cama, quero assumir esse dever com afinco, pois me devoto a vida. E ao me devotar, ela me nutre e me estimula.

Quando disse que esse texto é um apelo, é porque desejo você também se obrigue a sua vida, a estar vivo. Não ao que há de ruim ou doloroso nela e que parece inescapável, porque esses fatores nunca são a sua completude. Nenhuma dor ou solidão é completa e somente assumindo o dever de viver podemos comprovar isso.

É apenas nessa inescapável trajetória que a esperança pode surgir, assim como o acalento de um colo qualquer, abstrato ou real. Lembre-se: Somente ao assumir esse dever é que será possível experimentar suas recompensas. Esse dever não é em vão.

Que a perda de uma vida, de maneira inesperada, trágica ou injusta, nos relembre do compromisso que temos conosco. Pois "A vida realmente é delicada e passageira, como o orvalho da manhã."

Espero que eu tenha conseguido fazer algum sentido naquilo que compreendo como dever de viver e que, diante da dificuldade que sei que é assumi-lo, que você, que chegou até aqui, saiba que eu falei de todo o meu coração a você e que gostaria de ter olhado no fundo de seus olhos, pois sei que juntos podemos enfrentar esse compromisso de maneira mais forte.

Vamos assumir esse dever?

Arthur Spada

Instagram @arthurspada

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As obras que ilustram essa coluna são de CECILY BROWN, destaca artista contemporânea que especula sobre a ideia de paraíso em seus quadros. As pinturas, coloridas e dinâmicas, sugerem faces animais e humanas por entre o manto colorido. As imagens se mantêm em constante movimento, se revelando e escondendo o tempo todo, o que demanda a atenção do espectador e que sejam olhadas repetidas vezes.