80 tiros por engano ou Carta à Tradicional Família Branca Brasileira

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O que lhe comove?

O que é necessário para despertar a sua empatia?

Eu entendo, seus antepassados foram donos de fazendas, casas grandes, senzalas. E souberam transmitir aos seus descendentes o senso de proteção do patrimônio. Patrimônio conseguido por merecimento, afinal foram eles que vieram representando a coroa portuguesa. Trouxeram também as boas maneiras, os bons costumes. Que você, sua mulher e seus filhos  ainda ostentam com orgulho. Pelo menos, publicamente.

Mas 80 tiros não são o suficiente para você desconfiar que algo pode estar errado?

Eu entendo, o que são 80 tiros perto das chibatadas sem fim naqueles outros pretos, os que por séculos foram propriedade de suas famílias? E das famílias de seus amigos. Claro, pelo menos agora, há uma lei que proíbe mantê-los oficialmente cativos. Eles podem andar por aí tranquilamente. Mesmo que, por aí, não queira dizer em qualquer lugar. Sim, sem dúvida, eles podem andar nos lugares que você frequenta: abrindo as portas, carregando as sacolas, fazendo a limpeza, carregando coisas, servindo mesas, protegendo o seu patrimônio. Esses sim podem andar tranquilamente, desde que saibam o seu lugar. Como ensinou sua bisavó.  

Mas nem o fato de que era uma família indo a um chá de bebê e que escolheu passar perto do quartel justamente por se sentir mais protegida?

Eu entendo, felizmente não existem mais os capitães do mato. Aqueles que não compreendiam a própria identidade, naqueles tempos em que sequer possuir uma identidade era permitido para aqueles outros pretos. Já os de hoje, escolhem ser policiais, não é mesmo. Ninguém os obriga. Se o seu trabalho será matar os da sua cor, faz parte do ofício. Por que logo você que sempre prezou pela polícia, pelos militares, pelo exército como defesa de sua pátria e propriedade vai questionar como eles agem? Afinal, sempre deu certo. As coisas se mantiveram como nos tempos dos seus antepassados. É, faz sentido...

Mas será que faz sentido a dor daquela esposa que viu seu marido ser assassinado na sua frente e na frente de seu filho? Que tentou alertar que não eram bandidos. E que, ainda por cima, ouviu deboche ao som dos tiros?

Eu entendo. Essa gente é exagerada mesmo. Não entende que enganos acontecem. E, afinal as autoridades devem ter compreendido sua dor, mesmo que tenha sido por engano, e se encarregaram de dizer coisas que aliviaram seu sofrimento. Sei lá, talvez o governador ou quem sabe o presidente da república. Afinal, pessoas que ocupam esses cargos costumam ter grandeza para nesses momentos saber o que dizer e o que fazer. E sobre isso, você já fez sua parte. Já os elegeu. Já sorriu em frente à urna eletrônica quando viu estampados na tela da democracia os rostos daqueles homens de bem. Sua consciência pode seguir tranquila.

E, sim, você tem razão. Melhor mudar de assunto. Para que falar de coisas pesadas como esse engano dos 80 tiros quando a principal rua do Jardim Botânico teve seu asfalto arrancado pela força das águas? Nossa, isso sim. Não há mais lugar seguro para se morar. Isso sim é comovente, um bairro tão bonito. E total empatia com aquelas pessoas que tiveram seus carros, muitos deles de luxo, arrastados pelas chuvas. Que as autoridades sejam rápidas em resolver essa confusão!

E como disse o prefeito dessa cidade que segue sendo maravilhosa, vamos olhar para frente. O sol já voltou a brilhar! Vamos seguir sorrindo em nossas redes sociais, envoltos na bandeira de nossa pátria, e mostrando para o mundo como somos orgulhosos dessa tradicional família brasileira.  

Afinal, o que seria do Brasil sem ela?

Renato Farias

Instagram @fariasre

OBS.: O texto contém ironia. Os 80 tiros, nenhuma!