Coragem

blog da gaby

Numa manhã dessas, ainda no despertar da primeira caneca de café, chega um recado da minha mãe no celular: “A vida é efêmera, coragem”. Com uma frase dessas tive que passar a segunda caneca de café para coar o pensamento. E refleti sobre quanta coragem estava me faltando para escrever uma crônica no meio desta fase tão política e dual que estamos vivendo, sem a mínima coragem de falar de política e outras atrocidades que andamos sabendo pelas esquinas e jornais.

A etimologia de coragem é inspiradora. Do latim, coraticum (cor e aticum), que soma coração e ação. Nada menos do que agir com o coração. Frase que vai de encontro e se choca com os conselhos mais ouvidos de amigos, psicólogos, filosofias de nossa sociedade racional cartesiana.

Agimos com coragem desde que nascemos, coragem para nascer, coragem para pisar no chão e andar, para cair da árvore, para pular muros. E com o passar do tempo nos fazem pensar e pensar e pensar demais, nos levando a agir menos com o coração. A racionalidade excessiva cria uma couraça ilusoriamente segura, com crenças, conceitos e teorias. É o homem de negócios a nossa frente, o burocrata gerenciando nossas decisões, amores, escolhas.

O caminho do coração te leva ao inseguro, ao desconhecido, segue trilhas perigosas. E com tudo isso te prepara melhor para o mundo e as pedras no caminho. Porque a “vida é efêmera” e o coração, um grande jogador! Levantemos então a bandeira da busca do equilíbrio entre coração e razão, sábios orientais sempre nos ensinando. Inegável que o equilíbrio é a chave. Mas estamos num momento deste mundo em que é preciso muita coragem para estar no equilíbrio de nossas dualidades.

Coragem para sair para trabalhar com este trânsito, coragem para não sair de casa, coragem para pagar preços altos para manter a vida, coragem para abdicar de tudo e não pagar preço de nada, coragem para comer transgênicos, coragem para pagar pelo orgânico. Coragem para enfrentar o sim e o não. Coragem só andar de bicicleta, coragem só andar de carro e mais coragem para só depender do transporte público sem qualidade. Coragem para votar em que não se acredita, coragem para não votar, coragem para se libertar, coragem para se prender, coragem para se matar, coragem para viver.

Como diz Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem’.

CrônicaGaby Haviaras