Carta de Amor

Rio de Janeiro,25 de julho de 2016

Meu amor,

O inverno tem sido muito instável por aqui. E mais instável ainda com essa distância que cada vez mais aperta a saudade. O fim de ano aperta a saudade, o meio do ano aperta a saudade, a saudade de um amor aperta a saudade. Então para tentar afrouxar o tempo resolvi escrever uma carta de amor. Pouco usual hoje em dia. Mas carta mesmo, dessas com selo que vão pelo correio que a gente espera o carteiro entregar.

Escrever uma carta de amor ė o coração tatuado no papel com versos da alma. Uma carta de amor é o desnudamento piegas com a canção mais brega ao fundo! Porque não escrevemos mais cartas de amor como antes? Mesmo que sejam páginas escritas sobre o que aconteceu ontem, sobre quem ganhou a eleição, sobre a violência e os preços altos da cidade. O amor enche linguiça pra criar intimidade em versos.

Descobri que um amigo tem guardado 220 cartas de amor que seus pais trocaram ao longo do namoro. Moravam em cidades diferentes e se correspondiam semanalmente. Mergulhei em algumas cartas e fiquei imersa no filme desta relação. Recheada de acontecimentos cotidianos, descobertas, causos de família. Até mesmo o tempo se dilata nas linhas corridas do amor, o carteiro demora a chegar com a notícia, com a reação das suas palavras escrita a dias antes. Essas cartas têm me inspirado a escrever-te.

Sei que te escrevo com uma frequência quinzenal tentando acompanhar os assuntos do mundo, mas hoje o carteiro digital entrega rápido, não causa suspense! E a rapidez da possibilidade de resposta nem nos faz refletir e realinhar frases mal feitas. Lemos, respondemos e enviamos selando esse rápido sentimento com uma carinha. Um amor construído em boa conversa solidifica códigos, fortificando um contrato de afeto simples em versos. 

Acho que o mundo poderia se mandar mais cartas de amor. Estamos precisando mesmo de boas palavras e sentimentos honestos. É preciso escrever cartas, deixar bilhetinhos, escrever com batom no espelho, mandar torpedos se suspiros no meio da tarde de trabalho, e-mails longos declarados e cheios de tons e entre tons. Estamos precisando escrever o amor, para o amor e sobre o amor.
 

Aguardo sua resposta em breve,

Com amor, sua amada!

CrônicaGaby Haviaras