Não acredito num Deus que não Dance

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“Não acredito num deus que não dance! ”. Nem Nijinsky nem eu! Há duas coisas que me colocaram neste mundo: minha mãe e meu pai no carnaval e a dança. Na verdade, houve uma primeira dança, foi a do carnaval onde eles se entrelaçaram em pleno fevereiro, que me formou célula, matéria, gênero, ossos, músculos, vida e sua forma mais plena. E a segunda dança que me formou tamanho, forma, profissão, disciplina, espaço, escolhas, coletivo, eu e o outro.

O ballet clássico aparece aos cinco anos na tentativa de salvação de um corpo sem coordenação motora, noção nenhuma de espaço e muita debilidade respiratória. Há desafios diários na vida e eles começam bem cedo sem nem mesmo nos atentarmos para eles. As aulas eram um convite para fuga e passeios no corredor com amiguinhas e sainhas rosas. Mas a dança foi mais disciplinada que a minha falta de capacidade e me manteve na sala de aula. Depois houve um momento de escolha, lá na escola, entre dança e esporte. Fui dançar porque não queria competir.

Entre ballet clássico, jazz, moderno, contemporâneo, muitas horas de aula por dia, misturados com tarefas de português, matemática e provas que história e geografia que eu esquecia de estudar porque chegava em casa exausta, me fiz crescer e romper limites. Vi meu corpo se transformar e aprendi a observar o mundo através dele. Transformei minhas debilidades físicas e respiratórias da infância em capacidades inacreditáveis. Rompi medos quando, achava que não conseguiria executar determinado passo, e a persistência, repetição e determinação me fizeram capaz e segura. Hoje tenho um tamanho físico, habilidades e um aparelho respiratório cheio que gás lapidados na sapatilha!

Um dia uma amiga me falou tal frase: “A disciplina liberta! ” Aquilo encaixou como uma luva! A disciplina que a dança instaura no seu corpo, na vida, na rotina te libertam para o mundo, para o entendimento de você mesmo. A dança traz em seu aprendizado virtudes que o esporte também o traz, mas ela te acrescenta uma pitada de alma, arte e emoção. O corpo fala, a alma flutua, a arte transpassa e Deus abençoa.

Hoje, com algumas debilidades físicas não mais as da infância, as quais foram todas superadas. Mas as que estes 33 anos dançando me presentearam, ela continua me desafiando e ensinando. Ainda faço aula para a alegria interna do meu corpo, uso a dança andando na rua, observando os melhores espaços por onde ando, uso ela na minha profissão. Li um artigo que dizia: “Seis motivos que fazem dos bailarinos ótimos profissionais em todas as áreas: são ensináveis, são flexíveis, aprendem rápido, estão sempre preparados, trabalham duro e gostam sempre de trabalho em equipe. ”

A dança é um belo jeito de estar no mundo! O mundo que nasceu dançando, o cosmos, as estrelas, a dança das colheitas, a dança dos acasalamentos das primeiras células. Um jeito de observar-se e aprender com este mundo que se move o tempo todo. Como estar nele se não nos mexermos? Espero que você dance mais, coloque seus pequenos para dançar, dance para aprender, desafiar, estar com você, expandir seus sentidos! Dance bem, dance mais porque eu continuarei dançando até que minhas partículas subam aos céus dançando com o vento!