Pedra, Papel e Tesoura

Um dia desses, escutei uma frase: "minha palavra escrevo na pedra". Pedra? O que será de uma palavra escrita em pedra depois de, por exemplo, uma nova revisão ortográfica da língua portuguesa? Onde muito do que estava certo virou erro de português?

Escrever em pedra tira possibilidades de rever paradigmas, de quebrar crenças velhas, ou seja, de se renovar em versos poéticos. Estar em mudança, se refazer em questões, maturar as ideias são processos constantes, mutáveis. O que está escrito em pedra será para sempre, eterno? Ou, na pedra seguinte, virá: "desconsidere a pedra anterior, o que vale é o que está escrito na próxima"? Verdades absolutas são tão instantâneas como um pacote de miojo.

“Eu sou assim”, “Não tenho mais idade para mudar”, “Me aceitem do jeito que sou”, são frases escritas em pedras que não mais irão rolar para lugar nenhum! Fecham qualquer possibilidade de renascimento, são confortáveis para o escritor que não se sente capaz de vencer a própria inércia do seu ser.

E, ainda sobre frases, sinto falta de uma: “Eu te dou a minha palavra”. Este contrato verbal, de confiança e lealdade, cada vez é menos usado, está desaparecendo das frases diárias e, tenho minhas duvidas, se reflete o que está nos papéis lavrados em cartórios. Em tempos de políticos presos, num país onde a honestidade virou pano de chão em ladeiras de mármore, se tivéssemos “a palavra” destes homens por um país melhor com certeza não estaríamos onde estamos.

Este país, fruto de uma violenta colonização física e ideológica, escreve muita coisa em pedra: placas de inauguração, de descobrimento, de construção, tudo cunhado a ferro e fogo. Escreve em pedra com sangue de tantos mortos em batalhas, de minorias massacradas, de remoções das favelas, em eternas capitanias hereditárias. Escreve na sua bandeira com muita “ordem” um determinado progresso. É a história deste país desde 1500. E como mudar algo que, há tanto tempo, está talhado em pedra?

Manter nossa palavra é muito bacana, mas ela pode começar a ser escrita em outras superfícies para poder se renovar: escrever com sorvete no rosto de quem se ama, escrever na areia da praia para que a primeira onda apague, registrar momentos com batom no espelho, tatuar na alma, escrever de nanquim sobre a pele, jogar palavras ao vento, soletrar pensamentos na água, firmar tratos com giz de cera quente em pingos coloridos sobre o papel, revisar o caderno de matemática e escrever com guache que dois e dois podem ser um, dependendo do ponto de vista e, até mesmo, escrever com pedra no papel e cortar com a tesoura!

Fica a dica: Documentário “REMOÇÃO” de Luiz Antônio Pilar e Anderson Quack. Uma história escrita em pedra, com a força de muitas vidas!

GH

blog da gaby
CrônicaGaby Haviaras